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Tal como as rezas ao Senhor da Pedra by Carlos Tê

Contra ventos e marés, o Porto ganhou o título. Retire-se à expressão meteorológica a força dos adversários, que são a razão de ser do campeonato, mas incluam-se as polémicas, as querelas, os comentadores, e os ressabiados - poucos - que acenderam velas no Senhor da Pedra para que tudo corresse mal.

A aposta em Farioli revelou-se acertada, apesar do fantasma que o perseguia desde o Ajax. No fim de contas, tudo se resumiu a uma manifestação de pensamento desejoso (ou wishful thinking, que soa melhor) do comentariado afecto aos rivais pedindo à História que se repetisse nas últimas jornadas, com dramatismo, mas ela ignorou os pedidos olimpicamente.

Farioli vem dum país que não prima pela filigrana exibicional, antes pelo design trabalhista que rendeu quatro mundiais e doze Ligas dos Campeões de clubes. Os italianos que ganharam a Bola De Ouro não têm a fragrância de Cruyff, Messi, Ronaldo, apenas o funcionalismo de Rossi, Baggio, Cannavaro. O paradigma deste futebol é o Mundial de 1982, em que um Brasil virtuoso baqueou perante uma Itália que aceitou a sua inferioridade, mas compensou-a com astúcia e rigor táctico.

Ora, também há beleza no futebol funcional, e hoje a Itália nem isso tem, pois está novamente fora do Mundial. Já Farioli ergueu a casa sobre caboucos firmes a cargo dum experiente mestre de obras polaco - Bednarek. O Porto não teve o plantel mais caro nem fez os jogos mais vistosos, mas foi mais regular, abdicando de um solista como Rodrigo Mora, para privilegiar um corpo obreiro e móvel, mistura de formiga e centopeia.

Sim, houve momentos em que faltou o toque de classe que rompe o muro e vai além do golo somítico e precário. Muitos recearam que a casa ruísse - como podia ter acontecido, não seja o futebol uma possibilidade contínua de queda e redenção. Contra o Famalicão, como antes contra o Braga, também em casa, o Porto quase nem cheirou a bola - e quando a cheirou tratou-a como uma esfera tóxica. Pensei que o golo vindo do céu reporia a serenidade e arrefeceria o visitante, mas este lembrava o Real Madrid de outras eras, enquanto o Porto parecia ter saído do Ikea com um armário por montar sem trazer o croquis. Dei comigo a deleitar-me, masoquista, com Gustavo Sá, lançando até uma petição mental a Martinez - Sá ao Mundial, já! - tal a acutilância com que ele ia fatiando o meio campo portista. O pico da montanha estava perto, daí esse empate ao cair do pano ter sido mais gelado, sobretudo depois da arrebatadora meia hora final na Pedreira, que julguei ser a bitola daí para a frente.

Mesmo não sendo, o Porto não se desuniu, apenas se destrambelhou contra o Nottingham, após esbanjar a maior série de golos em quinze minutos de que há memória, reincidindo depois com um vermelho a Bednarek na segunda mão, e outro a Varela para a taça, contra o Sporting. A montanha acabou por ser escalada, para alívio dos adeptos, que não estão habituados a esperar três anos pelo título. Quanto ao fantasma de Farioli, esse, morreu na praia. Tal como as rezas ao Senhor da Pedra.

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